Um estudo recente efetuado por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e divulgado na plataforma ScienceDirect, via revista Measurement Energy, traz uma boa notícia para o avanço da energia solar: o desenvolvimento de um equipamento mais simples e barato para testar a durabilidade de novos tipos de painéis solares.
Hoje, uma das maiores dificuldades dessas tecnologias mais recentes é justamente saber quanto tempo elas conseguem funcionar bem. Embora sejam mais baratas de produzir e tenham grande potencial, esses novos painéis ainda se desgastam com relativa rapidez, o que dificulta sua utilização em larga escala.
Até agora, testes de durabilidade são feitos com equipamentos sofisticados, geralmente disponíveis apenas em escala industrial ou laboratórios bem financiados. Esses sistemas simulam condições como luz solar intensa, calor, humidade e exposição ao ar, mantendo os painéis em funcionamento contínuo durante dias, semanas ou até meses. Ao longo desse período, os pesquisadores monitorizam o desempenho para identificar quando e como ocorre a perda de eficiência. Apesar de eficazes, esses métodos exigem aparelhos caros, manutenção constante e ambientes controlados, o que limita o número de instituições capazes de realizar esse tipo de análise.
O problema, portanto, não está apenas nos materiais, mas também na dificuldade de testar a durabilidade dessas tecnologias de forma ampla. A limitação de acesso a esses equipamentos acaba por atrasar a obtenção de resultados e a comparação entre diferentes estudos.
Para contornar esse obstáculo, pesquisadores do IFSC/USP criaram um sistema de testes que pode ser montado com menor custo e que segue padrões internacionais, permitindo comparar resultados com maior segurança. Na prática, isso significa que mais equipes poderão estudar como esses painéis se comportam ao longo do tempo e em diferentes condições.
Nos testes realizados, o novo equipamento apresentou resultados confiáveis, semelhantes aos obtidos com métodos mais caros. Além disso, ele permite simular tanto condições controladas quanto situações do mundo real, como a exposição ao ambiente externo.
A principal contribuição da pesquisa é tornar esse tipo de análise mais acessível. Com isso, será possível entender melhor por que esses painéis se deterioram e como aumentar sua vida útil — um passo essencial para que possam chegar ao mercado de forma competitiva.
Um tipo de análise mais acessível
O pesquisador do IFSC/USP, Prof. Dr. Gregório Couto Faria, autor correspondente do estudo, aponta que essas novas tecnologias solares podem transformar profundamente o setor energético nos próximos anos. “Diferentemente dos painéis tradicionais, esses novos modelos podem ser mais leves, flexíveis e até transparentes, o que amplia as possibilidades de uso. Eles podem, por exemplo, ser integrados em janelas de edifícios, fachadas, telhados mais leves e até em dispositivos portáteis, como mochilas e equipamentos eletrônicos”, sublinha o pesquisador, acrescentando que essa versatilidade abre caminho para uma geração de energia mais descentralizada, em que casas, empresas e até objetos do dia a dia passam a produzir a sua própria eletricidade. “Com custos de produção potencialmente mais baixos, essas tecnologias também podem tornar a energia solar mais acessível a regiões com menos recursos, contribuindo para reduzir desigualdades no acesso à energia”, enfatiza.
Além disso, a facilidade de fabricação pode permitir uma produção em larga escala com menor impacto ambiental, reforçando o papel dessas soluções na transição para fontes de energia mais limpas. Em vez de grandes centrais solares concentradas, o futuro pode passar por uma rede mais distribuída e integrada ao cotidiano das cidades.
No entanto, a durabilidade ainda é um ponto crítico. Sem garantir que esses painéis funcionem de forma estável ao longo do tempo, a sua adoção comercial fica comprometida. “É aqui que nosso trabalho entra”, menciona Yosthyn M. Ariza Florez, aluno de doutoramento do Prof. Gregório C. Faria, e primeiro autor do trabalho. “Em sistemas fotovoltaicos, medidas de eficiência de primeiras medidas, não representam a viabilidade tecnológica da solução. Medidas de eficiência sempre devem ser acompanhadas de testes de estabilidade, já que sistemas fotovoltaicos devem operar satisfatoriamente por vários anos”, sublinha o pesquisador.
Ao propor uma alternativa mais simples e econômica para testar esses equipamentos, o estudo ajuda a acelerar esse processo e reforça a importância da pesquisa científica no desenvolvimento de fontes de energia mais sustentáveis.
Esta pesquisa foi apoiada pelo Instituto Nacional de Eletrônica Orgânica (INEO), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).
Confira no link o estudo original – https://doi.org/10.1016/j.meaene.2026.100096