Últimas Notícias

Encontro discute frete e armazenagem de milho para a produção de etanol em São Paulo

O workshop é resultado da parceria entre o CCD Etanol/Fapesp/Unicamp e a Esalq-Log/USP

O Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), sediado na Unicamp e financiado pela Fapesp, e o Grupo Esalq-Log/USP (Universidade de São Paulo) promoveram, em 22 de outubro de 2026, o workshop “Logística, frete e armazenagem de milho para a produção de etanol de milho no Estado de São Paulo”. Realizado no campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), em Piracicaba, o evento reuniu pesquisadores, operadores logísticos e representantes do setor e do poder público para debater o cenário da cadeia do etanol de milho no estado de São Paulo.

De onde, quando e quanto comprar

Para Ruiz, “o desafio é garantir o milho certo, no momento certo e ao menor custo de frete possível”. Ao buscar alternativas para essa questão, Fernando Pauli de Bastiani, pesquisador da Esalq-Log, apresentou cálculos logísticos para uma usina hipotética no centro do estado. O preço final de originação somou o preço do milho em cada praça, o frete até São Paulo, com dados do Sistema de Informações de Fretes (Sifreca), e o ICMS de cerca de 12% nas compras interestaduais. O resultado encontrado é contraintuitivo.

Hoje, Mato Grosso tem o milho mais barato do país, quase R$ 20 a menos por saca do que em São Paulo. Essa diferença, porém, é anulada pelo custo do frete. “Na conta, o milho mais barato para uma usina paulista acaba sendo o do próprio estado”, afirmou Bastiani. Segundo ele, o preço mínimo encontrado em São Paulo foi de R$ 1.102 por tonelada. Em outras regiões, como Mato Grosso do Sul, Paraná e a região de Rio Verde (GO), os valores ficam entre R$ 1.200 e R$ 1.300; em fronteiras agrícolas mais distantes, chegam a quase R$ 1.600 por tonelada.

Na comparação com uma usina mato-grossense, a originação paulista sairia de 20% a 30% mais cara. A reforma tributária, com a extinção gradual do ICMS, e a sazonalidade da colheita, que abre janelas de preço mais baixo do grão, podem reduzir essa diferença. Bastiani vê compensação na venda: “De um lado se perde competitividade na originação; de outro, se ganha na movimentação dos produtos”.

Infraestrutura e diferentes matrizes de transporte

Para a pesquisadora Sarah Barbosa Tosi, também da Esalq-LOG, “o que importa para a indústria não é apenas o milho mais barato na origem, mas o milho mais competitivo entregue na planta”. Nas simulações apresentadas por ela, rotas intermodais a partir de Mato Grosso podem reduzir o frete em cerca de 9%, enquanto opções semelhantes com origem em Goiás chegam a ser 4% mais caras, porque o frete rodoviário nesta rota é bastante competitivo.

Pensando em alternativas para diversificar o transporte do milho, Guilherme Delgado de Oliveira, representante da empresa de logística MRS, apresentou o novo corredor hidroferroviário da companhia, um investimento de R$ 1,5 bilhão que começará a operar no primeiro trimestre de 2027. Pelos cálculos da MRS, a solução emite cerca de 70% menos dióxido de carbono do que o transporte rodoviário.

Armazenagem do milho de um ano inteiro

Como o milho deverá ser comprado de outros estados em épocas específicas do ano, pensar em formas de estocar o grão se torna essencial. Toth, da Protea Eco, explicou que a escolha da estrutura de armazenagem afeta diretamente a viabilidade econômica do negócio. “O armazém plano me dá volume, mas me dá perda”, alertou, contrastando essa opção com os silos metálicos, que exigem maior capital inicial, mas garantem a qualidade do grão no longo prazo.

São Paulo, segundo Toth, é o único estado com superávit de armazéns: 14 milhões de toneladas, para uma safra de cerca de 12 milhões, em parte por conta de estruturas herdadas do café e do algodão. Para a implementação das usinas, a estratégia ideal, na avaliação dele, seria um modelo híbrido, que combina silos metálicos verticais, capazes de garantir de 30 a 60 dias de preservação, com armazenagem terceirizada na origem do grão, a um custo estimado entre R$ 12 e R$ 18 por tonelada por mês.

Em complemento, a rede pública se colocou como parceira. “A Ceagesp está totalmente aberta”, garantiu Luiz Silveira Rangel, diretor técnico-operacional da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), ao oferecer a estrutura da estatal para estocagem no interior paulista.

Péra encerrou a terceira mesa com uma ressalva sobre a capacidade paulista. De acordo com o professor, a sobra de armazenagem a granel do estado, de 3,4 milhões de toneladas, sustentaria apenas de 1,6 a 2,2 bilhões de litros de etanol. Produzir 12 bilhões de litros exigiria de 18 a 25 milhões de toneladas de capacidade, contra os 12,4 milhões de toneladas de capacidade a granel disponíveis hoje. Uma alternativa é estocar parte do milho na origem. “Eu não preciso trazer o milho de Mato Grosso logo; posso deixá-lo lá e trazer depois”, afirmou.

O debate: coprodutos e um novo intermediário

No debate, mediado por Ruiz, o público questionou a disponibilidade de milho nas praças mais baratas, a relação entre produtor e usina, a competitividade atual do etanol paulista, a carga de retorno das barcaças e o ganho real da intermodalidade. Alexandre Godoy, da consultoria FGA, e um representante do grupo sucroenergético São Martinho lembraram que o preço do DDGS acompanha o do milho e alertaram que a oferta do coproduto deve crescer mais rápido que a demanda. Além disso, Anderson Teixeira, da Petrobras, levantou o potencial de descarbonização da cadeia.

Os participantes do encontro reforçaram que a desvantagem na originação seria compensada na distribuição. “Se o produto de São Paulo percorre 300 km, o de Mato Grosso, por exemplo, tem que percorrer em torno de 2 mil km”, disse Péra. Ruiz estimou que milho, frete e armazenagem custariam cerca de R$ 2,66 por litro de etanol. O valor não inclui os demais custos de produção. Péra acrescentou ainda que, quanto mais longo o trecho rodoviário até a usina, menor o desconto do intermodal.

Ao final, Cortez propôs o estabelecimento de um novo agente que compre o milho na origem, estoque-o e o entregue à usina sob contrato. Toth condicionou a ideia à disponibilidade de caixa das usinas, e Rangel explicou que a Ceagesp, controlada pela União, não poderia exercer esse papel comercial.

Encerramento

No encerramento, o professor José Vicente Caixeta Filho, da Esalq-Log e idealizador do Sifreca, definiu a logística como integração de atividades e destacou a parceria entre USP e Unicamp. Ele espera que, em cerca de cinco anos, haja uma resposta clara sobre a viabilidade das usinas no estado. “Agora é preciso mostrar que vai dar certo”, disse. Caixeta também destacou as usinas flex, que usariam o parque industrial ocioso na entressafra da cana, e citou regiões como Piracicaba, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Assis como possíveis polos.

Cortez cobrou do governo paulista uma agenda para transporte, armazenagem e tributos: “Imaginem o simples fato de estender a safra da cana, acabar com a entressafra e passar de sete para doze meses por ano de operação”. Ele defendeu que o DDGS ajudaria a intensificar a pecuária e a liberar pastagens para a agricultura, o que reduziria as emissões ligadas ao uso do solo, que, segundo ele, respondem pela maior parte das emissões brasileiras. “No fundo, o que estamos tentando fazer aqui é a construção de um combustível verdadeiramente avançado”, afirmou.

Fonte: https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/10/26/encontro-discute-frete-e-armazenagem-de-milho-para-a-producao-de-etanol-em-sao-paulo/