Marcello Zuffo explica como o projeto funciona e a sua importância para a tecnologia nacional
A USP desenvolveu uma micro fábrica de chips e semicondutores chamada PocketFab, com capacidade de produção estimada em 60 milhões de chips ao ano, substituindo as grandes linhas de produção, que são consideradas poluentes e caras. Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos, do Laboratório de Sistemas Integrados da Escola Politécnica da USP e autor do projeto, explica o cenário atual dos semicondutores no Brasil.
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“Nos últimos 60 anos, houve uma evolução do uso dos dispositivos eletrônicos baseados em materiais semicondutores na sociedade, que incluem os smartphones, carros autônomos e drones. É inimaginável a vida em sociedade no atual momento sem o consumo desse tipo de tecnologia, que virou essencial à própria existência da vida humana. Houve uma concentração muito grande de investimento nas chamadas ‘mega fab’. Fábricas de chips são consideradas mega fab, porque o montante de recursos envolvidos para viabilizar uma fábrica dessas são, normalmente, de dezenas a centenas de bilhões de dólares, e isso começou a criar um impasse, principalmente no cenário brasileiro, visto que o Brasil consome muitos produtos eletrônicos. Em 2025, por exemplo, o Brasil consumiu quase US$ 50 bilhões em dispositivos eletroeletrônicos – ao mesmo tempo em que nós temos esse número astronômico, viabilizar uma fábrica de chips no Brasil custaria entre dois a dez bilhões de dólares.”
Produção nacional de semicondutores
Zuffo ressalta que a produção dos chips e semicondutores é fundamental para garantir a segurança econômica de um país. “A tecnologia de semicondutores passou a ser uma tecnologia estratégica, porque ela é tão necessária na atividade econômica que virou uma questão de segurança econômica. Países detentores dessas tecnologias, principalmente as mais recentes, com a tecnologia de AI e automação, acabam chantageando outros países em relação ao acesso aos chips. Nós tivemos, ao longo dos últimos cinco anos, vários gargalos de fornecimento de chips. O mais grave foi na época da pandemia, em que 80% das empresas que consomem chips no Brasil reportaram a falta do material, fazendo com que, numa situação limite, houvesse quase 300 mil trabalhadores de braços cruzados, porque eles simplesmente não podiam trabalhar sem os chips.”
“Desde a pandemia, esse risco tornou-se recorrente. Houve outra crise de falta de chips em outubro de 2025. Houve uma disputa comercial entre o bloco ocidental e a China, que decidiu parar de fornecer momentaneamente os chips para a indústria automotiva do Ocidente. Isso resultou em um caos em todos os setores fabricos do mundo, inclusive no Brasil. A ideia de fábricas portáteis traz várias vantagens, como a redução do custo inicial de investimentos, traz uma alternativa de fornecimento secundário em caso de crise, e ela preconiza, principalmente, a soberania nesse setor estratégico. Ou seja, a nossa capacidade autônoma de ter esses chips, se eles faltarem”, comenta.
O projeto na prática
O professor explica que as primeiras versões das micro fábricas estão previstas para serem criadas em abril. “O projeto tem como premissa um diálogo muito forte com o setor empresarial, nós tivemos um apoio muito grande de vários setores empresariais brasileiros, diversas associações empresariais vinculadas à Fiesp nos apoiaram, e isso está permitindo a constituição de grupos de trabalho. Concomitante com isso, nós já temos um projeto básico da fábrica, estamos realizando reuniões semanais com as equipes do Senai e o nosso foco inicial é um tipo de chip que é o chip fundamental para a inteligência artificial, chamado ‘chiplet’, ele é o segredo por trás dos supercomputadores de ar e dos chips quânticos.”
“É uma tecnologia bastante ousada, nós começamos a adquirir alguns equipamentos, temos equipamentos previstos para chegar em março e abril, e estamos em uma atividade muito intensa para criar as primeiras versões da fábrica ainda em abril deste ano. Em paralelo com isso, devido ao déficit de US$ 50 bilhões mencionado anteriormente, esses grupos de trabalho com a Fiesp nos indicaram quais seriam os chips promissores para serem fabricados no Brasil. Está sendo discutida a produção de chips no setor automotivo, aeroespacial, energia e agronegócio. Essa é uma outra característica que está sendo estudada para as PocketFabs, que é a flexibilidade”, finaliza o professor.