Para alguns economistas, as surpresas favoráveis constantes com os dados de inflação são sinais de que pode estar em curso uma mudança estrutural no comportamento dos preços. Embora a visão não seja consensual e ainda seja cedo para concluir que a “espinha dorsal” da inflação foi quebrada, especialistas afirmam que os erros sucessivos do mercado e do Banco Central nas projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) reforçam a ideia de que a recessão pode ter alterado de forma mais perene a dinâmica inflacionária.
Assim como o mercado, o UBS vem sendo surpreendido pelos números do IPCA há 18 meses, sempre para baixo, afirmam os economistas Tony Volpon e Fabio Ramos. Considerando a previsão do consenso de mercado de alta de 0,15% para março, o indicador oficial de inflação deve subir 0,76% no primeiro trimestre, número cerca de 0,4 ponto percentual menor do que o previsto pela autoridade monetária no Relatório de Inflação de dezembro. Se confirmadas as projeções para março, esta terá sido a menor inflação para os primeiros três meses do ano durante a vigência do Plano Real.
Com o objetivo de investigar as principais causas da inflação corrente mais comportada do que o esperado, Volpon e Ramos analisaram as divergências entre as previsões feitas pelos modelos do banco em relação aos dados observados. De forma agregada, os três principais modelos do UBS que projetam o IPCA total superestimaram a inflação de 2017- que foi de 2,95% – em 1,14 ponto percentual. Para os dois anos anteriores, a distância em relação à inflação prevista e registrada foi menor, de 0,83 ponto em 2016 e 0,58 ponto em 2015.
Na média dos modelos que preveem, separadamente, a inflação de alimentos, serviços e produtos industriais, o “erro” em relação à inflação do ano passado foi de 1,27 ponto, ante 1,01 ponto em 2016 e 1,06 ponto em 2015. Esse padrão de erros, segundo os economistas do UBS, reforça a visão de que a maior recessão da história do Brasil pode ter alterado a dinâmica inflacionária, ainda que os resultados não sejam totalmente conclusivos.
“Há evidências crescentes de que a recessão mudou estruturalmente o comportamento da inflação, mas este é um processo ainda em curso”, diz Ramos, que prevê alta de 3,6% para o IPCA em 2018. No começo do ano, a estimativa era de 4%.
Uma das razões que explica a tendência mais benigna da inflação é a diferença entre o desempenho efetivo do Produto Interno Bruto (PIB) em relação ao PIB potencial, o chamado “hiato do produto”, aponta o economista. Com elevada capacidade ociosa na economia, que ainda vai demorar para ser preenchida, a transmissão do aumento das commodities para os preços domésticos foi menor do que no passado recente, diz o UBS.
Embora ainda seja cedo para afirmar taxativamente que a recessão foi um divisor de águas na inflação brasileira, Rafael Gonçalves Cardoso, economista-chefe da Daycoval Investimentos, aponta que o padrão da última crise favorece a manutenção dos preços em nível moderado. A exemplo do ocorrido em países desenvolvidos, o setor privado ficou bastante endividado durante a crise, o que reprimiu o consumo. Com a necessidade de desalavancagem, famílias e empresas poupam mais ao invés de consumir e investir. “Estamos em um período de inflação baixa típico, que ocorre após ajustes no nível de alavancagem.”
Outro fator que difere a crise atual das anteriores é o hiato do produto, que é maior do que se imaginava e, por isso, permite um período mais prolongado com inflação mais baixa, afirma Fabio Romão, da LCA Consultores. Em algum momento, a ociosidade na economia vai acabar com a reação da atividade, mas isso só deve acontecer em 2020, pondera Romão. Outra mudança importante que se revelou mais duradoura e deve ajudar a manter os preços em patamar mais modesto é a inflação de alimentos, diz o economista.
Excluindo 2017 – ano em que os alimentos no domicílio tiveram deflação de 4,9% – a média de variação destes preços na década atual foi de quase 9% ao ano, destaca Romão. Neste ano, a expectativa é de alta de 2,5%, o que configura resultado ainda bastante tranquilo. Olhando as perspectivas de produção agrícola e expansão populacional, as cotações de produtos agropecuários devem ficar mais comportadas daqui para frente, diz. Assim, é difícil que a inflação de alimentos supere a inflação geral também nos próximos anos.
Por outro lado, o especialista da LCA pondera que não houve nenhuma alteração na indexação. A diferença é que, no momento, a correção de preços com base em índices do ano anterior está atuando a favor da inflação, porque os dados de 2017 foram atipicamente baixos. “Continuamos com hábitos ruins, como o aluguel indexado ao IGP-M.”
Além do aluguel, outro serviço cujos preços são influenciados pela inflação passada é a parte de educação, acrescenta Cardoso, da Daycoval. “As expectativas foram ancoradas e isso teve efeito favorável sobre a inflação, mas não houve uma quebra da indexação”, diz ele, motivo pelo qual, em sua avaliação, ainda não é possível concluir que a inflação reduzida é algo estrutural.
Coordenador do Centro de Estudos em Macroeconomia Aplicada (Cemap) da FGV em São Paulo, o economista Emerson Marçal comenta que o componente de expectativas da inflação brasileira já foi controlado. No entanto, a possibilidade de que medidas de austeridade fiscal como o teto de gastos sejam eliminadas, associada às dúvidas sobre o processo eleitoral, pode reverter facilmente este quadro. “Por isso sou um pouco cético em relação a essa ideia de mudança estrutural da inflação.”
Em artigo esta semana no Valor, o economista Nilson Teixeira mostra visão também menos otimista: “A percepção de que a inflação permanecerá baixa de forma permanente assume uma dinâmica muito favorável para o Brasil nos próximos anos. Por agora, essa perspectiva ainda parece um sonho”, conclui.