Com investimento de R$ 200 milhões, o CPA-Citros, criado pela instituição em parceria com o Fundecitrus e a Esalq-USP, pretende avançar na identificação de estratégias para o combate ao greening
Elton Alisson | Agência FAPESP – Responsável por 8,2% das exportações paulistas e pela geração de cerca de 45 mil empregos no Estado de São Paulo, o setor citrícola tem enfrentado um de seus maiores desafios: combater o greening, ou Huanglongbing (HLB) – considerada hoje a doença bacteriana mais grave e destrutiva dos citros mundialmente.
Registrado no Brasil a partir de 2004, o greening já causou a perda de 65 milhões de plantas na citricultura paulista, que foram eliminadas na tentativa de controlar a enfermidade.
A fim de identificar soluções para combater a doença e outras pragas que ameaçam a agricultura, a FAPESP, o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) criaram o Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura (CPA-Citros), cujo acordo para instalação foi assinado segunda-feira (12/01), durante evento na Esalq-USP.
“Estamos reproduzindo, agora, com a criação do centro, o modelo exitoso do combate à Xylella [causadora de uma praga conhecida popularmente como amarelinho], que ocorreu há 25 anos e atingiu a citricultura paulista”, disse Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, durante o evento.
A FAPESP e o Fundecitrus já tinham sido parceiros no Projeto Genoma, que, em 2000, sequenciou pela primeira vez o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, marco que permitiu avançar a pesquisa em biotecnologia no país.
“Estamos falando aqui, agora, de uma aliança entre pesquisadores, citricultores e órgãos de Estado para resolver um problema prático da sociedade. E é isso que a FAPESP tem feito nesses últimos anos”, sublinhou o dirigente.
Com investimento total de R$ 200 milhões nos próximos cinco anos, renováveis por mais cinco – dos quais R$ 90 milhões serão aportados pela FAPESP e pelo Fundecitrus –, o centro terá como missão desenvolver pesquisa, difundir conhecimento e transferir tecnologia para o setor.
Inicialmente, o CPA-Citros será formado por uma rede composta por 75 pesquisadores de diversas áreas e vinculados a 19 instituições, como a própria Esalq-USP, além das universidades Federal de São Carlos (UFSCar), Estadual de Campinas (Unicamp) e Estadual Paulista (Unesp), os institutos Biológico e Agronômico (IAC) e a Embrapa. O centro também contará com a participação de instituições de pesquisa agrícola de países como Portugal, França, Espanha, Estados Unidos e Austrália.
A criação dessa rede internacional de pesquisadores para combater o greening é estratégica para identificar soluções para a doença, avaliaram especialistas presentes no evento. O único material que apresentou resistência genética à bactéria causadora conhecido até agora foi identificado na Papua-Nova Guiné, na Oceania.
“Esperamos que essa rede de pesquisa crie sinergia entre os laboratórios, de modo que os pesquisadores conversem e os resultados sejam compartilhados para que consigamos progredir no combate ao greening”, disse Lilian Amorim, professora da Esalq-USP e diretora do CPA.
Ações de combate
De acordo com a pesquisadora, o CPA-Citros foi proposto a partir de uma demanda dos citricultores paulistas em razão do aumento da incidência de plantas com greening no Estado de São Paulo, particularmente após 2022.
“O objetivo de curto prazo do centro é interromper a epidemia da doença e promover a sustentabilidade da citricultura paulista”, afirmou.
Dados recentes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), apresentados por Zago durante o evento, apontam um aumento de 7,5% da incidência do greening no Estado de São Paulo, atingindo mais de 60% das plantas em regiões como Limeira, Porto Ferreira e Avaré.
No intuito de conter o avanço da doença nos pomares paulistas, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo fiscalizou, no ano passado, mais de 17 mil propriedades e retirou de circulação mais de 60 mil mudas irregulares, contou Alberto Amorim, secretário-executivo do órgão.
“Também criamos um programa estadual por meio do qual recebemos denúncias de pomares abandonados e temos liberdade para erradicação. Isso é inédito no país”, afirmou Amorim.
Na avaliação de Antônio Juliano Ayres, diretor-executivo do Fundecitrus, o CPA-Citros será fundamental para conter o avanço e erradicar o greening.
“Os citricultores paulistas já passaram por desafios fitossanitários complicadíssimos e agora enfrentam o maior deles. Mas tenho a certeza de que o greening é uma pedra que será removida do caminho de nosso país”, avaliou.
O reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, apontou que essa meta é prioritária, uma vez que o Brasil é responsável pela produção de cerca de 75% do suco de laranja consumido no mundo atualmente.
“A formação dessa rede de pesquisa internacional por meio do novo centro é fundamental porque, provavelmente, um único laboratório não vai conseguir resolver o problema do greening”, concluiu.
Também participaram da cerimônia de assinatura do convênio Marcio de Castro, diretor científico da FAPESP, Thaís Vieira, diretora da Esalq-USP, e Raul Machado, gerente da Assessoria de Relações Institucionais da Fundação.